2005-04-01
Adios
"Aprendi que todo o mundo quer viver em cima da montanha, sem saber que a verdadeira felicidade está na forma de subir a encosta."
Achei esta frase apropriada para vos dizer "Até um dia"... Ainda tenho muito para escrever, mas não aqui. Não agora. Quando voltar (não sei quando) espero encontrar-vos de novo!
*1beijo=1000*
2005-03-08
Lost?
I jumped in the river
and what did I see?
black-eyed angels swimming with me
a moon full of stars and astral cars
all the figures i used to see
all my lovers were there with me
all my past and futures
and we all went to heaven in a little row boat
there was nothing to fear. nothing to doubt.
2005-02-09
pequeno poema haiku
Em vão o menino tentava
Segurar uma gota de orvalho
Entre o polegar e o indicador
Imperfeito este mundo
E contudo
Recoberto de flores
Haiku de Issa Kobayashi (II)
ZEN
"O homem perfeito usa a sua mente como um espelho. Ela nada aprisiona e nada recusa. Recebe mas não conserva." (Soshi)
2005-01-09
Ensaio sobre o Peso e a Leveza #2
Antes de mais, M, quero lançar duas novas premissas na discussão: primeiro, a questão da gravitação também tem que ser vista de uma outra forma, em que nós também somos activos e atraímos outros corpos contra nós. Segundo, a gravidade e a gravitação podem actuar sinergicamente, quando um corpo que choca contra nós nos empurra contra o solo (a Terra), favorecendo a força que nos puxa no mesmo sentido.
Mas para te elucidar, recorro à história. Parménides, por volta do século VI antes de Cristo, debateu-se com esta mesma questão. Segundo este filósofo pós-socrático, o universo está dividido em pares dicotómicos: luz-sombra; espesso-fino; quente-frio; ser-não ser. Deste modo, há sempre um pólo positivo e o outro negativo. Esta divisão pode parecer relativamente fácil, excepto no presente caso: o que é positivo: o Peso ou a Leveza?
Parménides classificou com facilidade (e alguma leviandade!) o leve como positivo e o pesado como negativo. Teria razão? É verdade que um corpo pesado contra nós nos pode esmagar contra o solo, mas ao mesmo tempo mais nos aproxima da Terra e mais verdadeira se torna a nossa vida (inerência absoluta dos pés no chão).
Por outro lado, a ausência de uma força que nos atraia, de um fardo, faz-nos voar, afastar-nos do Mundo, torna-nos livres. Mas também torna os nossos movimentos tão livres quanto insignificantes.
A dificuldade de movimentos quando temos algo acoplado a nós, a impossibilidade de fazer tudo o que nos apetece e, sobretudo, quando nos apetece, é um mal que vem sempre com a única forma de matar a solidão, de nos sentirmos desejados e de podermos receber a única coisa com verdadeiro valor. Falo das relações com os outros. Em contrapartida, a facilidade de movimentos, a liberdade de escolha, faz de nós seres soltos, que podem a qualquer momento afastar-se de tudo e de todos em direcção ao infinito sem ter nada que os segure.
A mim não me restam dúvidas em relação ao erro de Parménides: a Leveza seria valiosa se fosse efémera, mas como condição é insustentável. Eu escolho o Peso como pólo positivo porque significa, no seu sentido menos literal, ter alguma coisa.
Esta temática surgiu pela primeira vez há muitos anos, num longo devaneio durante a leitura de A Insustentável Leveza do Ser (1983), de Milan Kundera. Algumas premissas deste post foram de lá retiradas, ficando aqui a devida gratidão ao autor. De qualquer modo, este blog é altamente parcial e, por isso, manipulei e reorganizei a informação conforme a minha interpretação.
Ensaio sobre o Peso e a Leveza #1
Gravidade: força proveniente da atracção exercida pela Terra sobre todos os corpos, levando-os a precipitar-se para o seu centro; semelhante na sua natureza à Gravitação: força de atracção universal que os corpos exercem uns sobre os outros, estendendo-se até ao infinito mas diminuindo com o quadrado da distância; embora com efeito geralmente contrário.
Enquanto que a primeira nos mantém com os pés bem assentes no chão, a segunda faz-nos voar uns contra os outros, chocar contra os corpos que nos rodeiam, primeiro com os mais próximos, depois com os que se vão aproximando. Uma análise rápida conduz-nos a um curioso teorema: apesar de os corpos a nós semelhantes, ao atrair-nos, nos afastarem da Terra, acabam por ter um efeito em tudo semelhante ao da Gravidade, pois atraem-nos para eles próprios. Isto significa que sob a acção destas duas forças, temos sempre os pés assentes, ora na Terra, ora num qualquer corpo.
Faz parte da nossa condição o Peso, uma vez que, como vimos, sofremos sempre uma acção de uma força. A não ser que nos viremos para nós próprios, alheando-nos do exterior e evitando o cruzamento com outros corpos que possam exercer atracção sobre nós. Aí talvez consigamos voar aleatoriamente, sem nos dirigirmos contra nada/niguém. Nessa altura, estaremos a experimentar a sensação de Leveza.
Esta antítese "força-não força" faz-nos entrar num ciclo em que a presença de uma nos faz desejar a outra. Mas afinal, o que é melhor: o Peso ou a Leveza?
2005-01-01
Eco
Ando pelas ruas desamparado aos gritos. Grito contra as paredes e becos sem saída, à procura daquela velha resposta, tão familiar... Sim, é verdade que procuro sempre o mesmo. Desde sempre, em tudo e em todos. Espero ouvir sempre o mesmo eco e tento ligar tudo o que vejo com o passado. Sou um eterno coleccionador de pequenas coincidências, co-ressonâncias e parecenças. Não acredito na química, nos produtos diferentes quando juntamos diferentes reagentes; a mistura entre o passado e o presente é única e igual para todos os mortais. Eu sei que te custa, que esta ideia é atroz, mas é A VERDADE. Aceita-a.
2004-12-22
Memória
A memória é uma coisa muito poderosa, que respeito e, acima de tudo, temo. Experimentei a sensação de apagar algumas memórias que guardava aqui no blog; claro que ainda as trago comigo, mas sei que a única coisa que as fazia manterem-se vivas era o facto de estarem escritas e que daqui a algum tempo vão cair no esquecimento. De qualquer maneira, eram coisas fúteis, sem grande importância- e é exactamente isso que faz com que se desprendam de mim com tanta facilidade! É que as coisas marcantes, as verdadeiras memórias, nunca se esquecem. Recalcam-se, escondem-se, atiram-se para as profundezas, mas sempre para um poço com fundo. E quando menos esperamos, elas voltam... Principalmente as más memórias.
Para mim as más memórias não são as relativas a situações em que alguém (ou algo) me fez sofrer, porque dessas retirei sempre uma lição e uma força para julgar melhor o Mundo e não me deixar enganar. As memórias realmente dolorosas, quase cortantes, são as que remontam a situações em que eu fui o elemento mau, em que fiz sofrer alguém. Aí reside a prova de que eu erro, de que eu consigo ser má pessoa e que por muito que me esforce todos os dias, todos os minutos- toda a infinidade de momentos por que passo, porra!- por ser bom, terei sempre uma mancha em mim. Ironicamente, são estas as memórias perante as quais não consigo esboçar sequer um sinal de luta: nem sequer tento combatê-las quando reaparecem. Como se, inconscientemente, me conformasse e recebesse assim o merecido castigo. E visto assim, tudo isto é sentido como uma grande derrota, uma derrota imensa como a eternidade, e por muito que eu tente começar de novo, que use uma página limpa, brand new, os riscos errados e grosseiros do passado notar-se-ão para sempre.
A angústia que sinto ao saber que podia ter sido melhor tranforma-se, a cada momento, na angústia de saber que posso mas não consigo ser melhor.
2004-12-13
La vie est un Miracle!
Era assim que eu queria ser... Aqui encontrei o que eu queria ter, sentir e viver!Pela primeira vez vi a história de uma vida que faz sentido*
Pó
Penso em duas pessoas ao mesmo tempo. Uma disse: "é uma pena este blog estar a ganhar pó" e a outra veio, bufou e levantou algum do pó. Não sei porquê, mas acho que isto já me aconteceu noutras alturas... e noutras situações! Fico sempre com uma dúvida, como se tivesse um gatinho em cada mão e só pudesse ficar com um...
O que hei-de pensar de
TI
e de
TI
?
2004-12-12
Litania
Nós nunca nos realizamos.
Somos dois abismos - um poço fitando o céu.
in O Livro do Desassossego, Bernardo Soares
2004-12-10
7
«Se um facto exterior te causa aflição, não é ele que produz essa perturbação, é o juízo que formulas sobre ele. Mas tal juízo, de ti depende eliminá-lo num segundo. Se o que te aflige é algo atinente à tua disposição de espírito, quem te impede de corrigir a tua maneira de ver? Da mesma forma que te apoquentas por não realizar o desígnio que se te afigura racional, porque não redobrar de esforços para o executar, a não andar para aí a gemer? -É que alguma coisa de mais forte do que eu me barra o caminho. - Pois não te aflijas, nesse caso, a culpa não é tua se não fazes o que planeaste. - Não vale a pena viver se o não faço. - Pois morre em paz, com um sorriso, como o que fez o que tinha em mente, e sem praguejar contra os obstáculos.»
in Pensamentos, Marco Aurélio
Antes de ousar eliminar juízos, tenho de aprender a tratá-los por tu.
2004-11-29
sem dar conta...
Quantos passos são da melancolia à tristeza? Não me lembro de os ter dado...
2004-11-24
O calor que nunca chega
Foram mil abraços que recebi, quando tudo o que eu realmente queria era um beijo (teu)...
2004-11-15
Phi
Saí de casa cedo, como sempre. Inspirei fundo o ar matinal e exalei uma pequena nuvem. Levava o casacão de fazenda porque faz sempre tanto frio lá fora e tu sabes que eu detesto tiritar e as frieiras nas mãos magoam e não me deixam escrever. Atravessei a rua e olhei pela montra do café, onde vi um cachopo a pegar no copo da meia de leite com as duas mãos e a rir-se para o pai, que lhe fazia um avião com um guardanapo. Passei pela velha ponte romana onde pela primeira vez me ferraste o lábio e eu fiquei tão contente que não te disse que me tinhas aleijado.
(Dessa vez- lembras-te?- tu encontraste-me perdido e atrasado para a aula de yoga e eu senti-me tão bem quando me disseste o teu "buu" pelas costas... Foi o melhor susto que apanhei! Acabei por não ir à aula porque ficámos junto ao ribeiro a dançar, muito abraçadinhos, ao som da música que ecoava nas nossas cabeças. Dançámos muito bem, mas mais tarde soube que era ao som de músicas diferentes.)
Quando me sentei à frente do estirador, com o velho aquecedor a óleo ao lado, olhei pela janela e pensei por uns momentos em ti. Estava a rabiscar alguma coisa e, ao voltar a mim, vi que tinha um número escrito: 1,618. Sorri; este é o valor de phi, a Proporção Divina.
Trabalhei horas a fio e fiquei contente quando me apercebi que estava a melhorar da dislexia. Agradou-me a ideia de não trocar tudo quando um dia voltasse a estar contigo porque tu irritas-te com isto e falas-me com pontos finais, secos, tenazes, que ficam entranhados e demoram a esquecer e eu acabo sempre por ficar cansado de tentar não levar a mal e fico um pouco mais calado e tu ainda te irritas mais.
Quando voltei para casa o gato ronronou por ti, eu ri-me (também gostava de saber onde estarias) e disse-lhe "tiraste-me os miados da boca". Passaram-se meses desde a última vez em que quis ter vontade de te beijar... Acho que já nem me lembro como eram os teus beijos, mas nunca me esqueço de como, na brincadeira, me tocavas com a língua no canto da boca e sorrias.
O teu sorriso... É a lembrança tua que guardo com mais lucidez, mas às escondidas. Nunca posso pensar muito tempo nisso porque fico todo dormente e com medo de cair.
2004-11-14
This is the end
Estou a acabar de fazer a mala. Vou deixar-te a ti, a mim e ao meu mundo. Não nos deixo a nós porque "nós" já não existe. Levo pouca coisa para não ter nada que me ligue ao passado, apenas uma memória recalcada, cada vez mais ténue de tudo aquilo que fui, que fomos, que tive e que me fizeste perder. Talvez nos cruzemos de novo, num futuro longínquo, quando ambos formos gatos.
"This is the end... my only friend, the end"
2004-11-12
de novo...
Foi há um mês atrás que alguém escreveu pela última vez neste blog. Qual terá sido a razão para estar desligado deste reconforto, deste pequeno espelho?
Todos nós precisamos, por vezes, de fugir daquilo que nos é mais próximo, sem que isso signifique que perdemos o interesse ou deixámos de dar importância! É um pouco como suster a respiração para ver quanto tempo se aguenta... De qualquer maneira, lembro-me vagamente de ter decidido parar por uns tempos e olhar para tudo o que tinha escrito como se não fosse meu. E ver, uns tempos mais tarde (hoje!), se tudo aquilo que escrevi me dizia algum coisa.
Foi como escrever-me num papel, durante meses, e depois atirar esse papel para a corrente de um rio qualquer, até que alguém o encontrasse de novo e voltasse a escrever. Mas será que a pessoa que escreve hoje é a mesma de outrora? E a pessoa sobre quem se escreve? Será alguma das duas? *
2004-10-15
Ensaio sobre as coisas leves e fora do sítio
Existe uma grande diferença entre estar-se desorientado e desnorteado. Desorientação: perda do Oriente; estado em que não reconhecemos a direcção e o sentido do Oriente = Leste (não implicando que não se conheça o Norte). Apesar de estes termos serem frequentemente usados com o mesmo sentido- caracterizar um indivíduo que se sinta perdido, das mais variadas maneiras-, são bem distintos. O facto de serem altamente metafóricos permite-nos considerar a possibilidade de não conhecer o Leste, sabendo, no entanto, onde fica o Norte.
Reparei hoje nesta particularidade quando dizia a alguém (acho que ao M) que nunca soube dizer onde ficava o Leste. Talvez porque seja o sítio onde sempre estive e que nunca pude ver de fora. Vivo a Leste de um qualquer Paraíso que nunca conheci e, ainda assim, sei sempre onde está o meu Norte. Tenho-me guiado sempre por ele e chegado a bons portos. E a falta de uma outra direcção não me enfraquece, mas torna-me mais leve. Resta saber como seria.......
#1.1
Tem que haver sempre um pequeno arranhão no céu da boca, não é? Daqueles que sarariam se deixássemos de lá passar a língua de vez em quando... E isso faz-nos caminhar numa corda bamba. Não há volta a dar-lhe!
2004-10-14
O auto dos mundos criados
Estive a ler o que escreveste. No fim, ecoava um único pensamento na minha cabeça: tens de aprender a falar a língua dos outros. Eu não sou exemplo para ti, porque apesar de falar sempre com precisão a língua dos outros, acabo por não lhes mostrar a MINHA língua, por não fazer com que os outros me entendam a mim. Mas tu... Constróis um mundo para dois à tua imagem, não à imagem dos dois. Fechas-te no VOSSO mundo sem dar a chance que outra pessoa entre. E eu... Faço um mundo à imagem da minha alma gémea, mas não da minha própria alma; é irónico como súbdito e mestre são, na essência das suas relações amorosas, tão afastados! Revolto-me quando te vejo desaproveitar as maravilhas que a vida te tem oferecido mas, por outro lado, envergonho-me de não me preservar, de me deixar desvanecer... O que me vai servindo de consolação é saber que tanto eu como tu somos estirpes em extinção, mas que valem a pena perpetuar...
2004-09-22
Carta de Amor
«Stop all the clocks, cut off the telephone,
Prevent the dog from barking with a juicy bone,
Silence the pianos and with muffled drum
Bring out the coffin, let the mourners come.
Let aeroplanes circle moaning overhead
Scribbling on the sky the message He Is Dead,
Put crêpe bows round the white necks of the public doves,
Let the traffic policemen wear black cotton gloves.
He was my North, my South, my East and West,
My working week and my Sunday rest,
My noon, my midnight, my talk, my song;
I thought that love would last for ever: I was wrong.
The stars are not wanted now: put out every one;
Pack up the moon and dismantle the sun;
Pour away the ocean and sweep up the wood.
For nothing now can ever come to any good.»
W.H.Auden
É estranho escrever uma carta de Amor e, ao mesmo tempo, de despedida... Felizmente, sei que poderei continuar a ouvir-vos recitar estas cartas de Amor, em noites inspiradas! Obrigado por tudo*
2004-09-20
Bye Bye Brasil
«Oi, coração,
Não dá pra falar muito não,
Espera passar o avião.
Assim que o inverno passar
Eu acho que vou te buscar,
Aqui tá fazendo calor,
Deu pane no ventilador.
Já tem fliperama em Macau,
Tomei a costeira em Belém do Pará,
Puseram uma usina no mar,
Talvez fique ruim pra pescar,
Meu amor.
No Tocantins,
O chefe dos parintintins
Vidrou na minha calça Lee.
Eu vi uns patins pra você,
Eu vi um Brasil na tevê,
Capaz de cair um toró,
Estou me sentindo tão só,
Oh, tenha dó de mim.
Pintou uma chance legal,
Um lane lá na capital,
Nem tem que ter ginasial,
Meu amor.
No Tabariz
O som é que nem os Bee Gees.
Dancei com uma dona infeliz
Que tem um tufão nos quadris,
Tem um japonês trás de mim.
Eu vou dar um pulo em Manaus,
Aqui tá quarenta e dois graus,
O sol nunca mais vai se pôr.
Eu tenho saudades da nossa canção,
Saudades de roça e sertão,
Bom mesmo é ter um caminhão,
Meu amor.
Baby, bye bye,
Abraços na mãe e no pai,
Eu acho que vou desligar,
As fichas já vão terminar.
Eu vou me mandar de trenó
Pra Rua do Sol, Maceió.
Peguei uma doença em Ilhéus
Mas já tô quase bom.
Em março vou pro Ceará
Com a benção do meu orixá,
Eu acho bauxita por lá,
Meu amor.
Bye bye, Brasil,
A última ficha caiu,
Eu penso em vocês night and day,
Explica que tá tudo okay,
Eu só ando dentro da lei.
Eu quero voltar, podes crer,
Eu vi um Brasil na tevê,
Peguei uma doença em Belém,
Agora já tá tudo bem
Mas a ligação tá no fim,
Tem um japonês trás de mim.
Aquela aquarela mudou,
Na estrada peguei uma cor.
Capaz de cair um toró,
Estou me sentindo um jiló,
Eu tenho tesão é no mar.
Assim que o inverno passar,
Bateu uma saudade de ti,
Tô a fim de encarar um siri.
Com a benção do Nosso Senhor
O sol nunca mais vai se pôr.»
Chico Buarque
Já há muito que vos queria cantar esta música... *
2004-09-05
Auguste
Li algures uma conversa entre Matisse e Renoir, em que Matisse perguntou:
"Auguste, porque continua a pintar, com tanto sofrimento?",
ao que Renoir respondeu:
"A dor passa, a beleza permanece..."Será também esta a razão pela qual continuo a amar?2004-09-03
Re:#1
"The little things. There's nothing bigger, is there?"
-David Aames-
2004-09-01
#1
Somos todos feitos da mesma matéria. Somos todos tão iguais... As diferenças entre os seres humanos resumem-se a pequenas trivialidades, quase fúteis. A corrente que arrasta cada um de nós é para todos a mesma; seguimos todos na mesma direcção. Apenas nos diferenciamos quando escolhemos a margem em que vamos parar. Porque a velocidade com que percorremos este rio e o encontro de mais ou menos obstáculos não interessam para nada. É esta a nossa natureza, a nossa condição perante os nossos semelhantes. Triste e incontornável, este destino... Resta-nos aproveitar bem a viagem e gozar a paisagem à nossa volta.
2004-08-08
Big cloud up in the sky
A propósito do tempo que passou desde que descobri que estava tudo em risco de acabar... Não houve um momento exacto em que as nuvens encobriram o céu, nesse dia. Foi tudo muito rápido, mas não repentino. A procura de um abrigo foi a primeira ideia que me ocorreu, mas logo percebi que não era esse o caminho a seguir. Por isso, caminhei ao som da trovoada, em passo muito rápido e um pouco desajeitado, até. Ia olhando de soslaio a grande nuvem lá em cima, com medo que desabasse sobre mim, precipitando assim o grande Final. Esqueço o resto do caminho. Foi duro e cheio de obstáculos, mas ultrapassável e, aliás, ultrapassado. Até que cheguei Aqui. E Aqui a nuvem desapareceu. Transformei o meu maior Yin em Yang.
2004-08-01
Acerca da vida...
«Quando o infortúnio nos é trazido pelo céu, temos a possibilidade de lhe escapar; mas quando somos nós que criamos o nosso próprio infortúnio, é impossível fugir dele.»
Kung Fu-Tsé
2004-07-25
Um mês depois...
Quase um mês sem suspirar... As épocas de exames constroem muros invisíveis, quase intransponíveis, à nossa volta. Nem sei muito bem, ainda, o que pensar, o que dizer. Tenho de afastar esta descontracção forçada e deixar-me ir, de novo, ao sabor do vento! Entretanto, vou refugiar-me num lugar onde possa sentir bem o vento a soprar...
2004-06-27
Pequenos momentos
Por vezes não consigo que sintas a emoção das minhas palavras. Tiro da cartola um pequeno momento, absolutamente mágico, efémero e irrepetível, que penso que vais guardar para sempre no coração, mas acabas por lhe passar ao lado...
Peço-te para olhares o céu, para veres uma estrela cadente que desencantei só para ti, e tu fechas os olhos... Tal como se um poeta escrevesse o seu maior poema com uma tinta que imediatamente desaparecia. E tu acabasses por não o ler.
Sail me to the moon
Why don't you build me an ark and let me sail to the dark side of your moon?
2004-06-20
Ensaios EGOístas
Hoje descobri o meu ego. Ainda não sei ao certo do que se trata nem o que fazer com ele. Descobri-o quando uma rapariga me tocou suavemente no ombro. Saltou-lhe do olhar brilhante para o bolso da minha camisa. Fez-me sorrir e retribuir o toque.
Ao reparar nele, espantado, refugiei-me no cimo de uma oliveira e tirei-o do bolso. Quis escondê-lo de toda a gente, para depois o estudar a sós, saber o que queria de mim.
Falava por meias palavras e sempre com muita confiança. Fez-me uma série de perguntas, para saber algumas coisas sobre mim e, quando dei conta, estávamos mergulhados numa grande conversa, aberta. Ele julgava que eu sabia da sua existência e que muito do que eu fazia era por sua causa. Ao aperceber-se da minha surpresa, explicou-me tudo. E disse-me o que fazer.
Indicou-me o caminho da Primavera e disse-me para o seguir. Aconselhou-me a navegar e aproveitar as ondas grandes, que me levavam mais depressa. Pediu-me para não parar nas ilhas meias submersas que me iriam aparecer no caminho e lançar as amarras apenas no verdadeiro destino. E, antes de desaparecer como um pózinho mágico, disse-me: "Não te guies por nenhuma estrela porque hoje a estrela és tu!"
Vertigem
"É natural que quem queira «elevar-se» sempre mais, um dia, acabe por ter vertigens. O que são vertigens? Medo de cair? Mas então porque é que temos vertigens num miradoiro protegido com um parapeito? As vertigens não são o medo de cair. São a voz do vazio por debaixo de nós que nos enfeitiça e atrai, o desejo de cair do qual, logo a seguir, nos protegemos com pavor." E o que acontece a essa voz que nos enfeitiça e a esse pavor quando imaginamos o que aconteceria se realmente caíssemos? Será que o medo é da queda em si ou do impacto, do choque com o fundo?
Metafisicamente, o medo é sempre da queda em si. O impacto torna-se secundário. Uma vez no fundo, depois do choque, já não é possível descer mais. O fundo é a zona de maior segurança e de menor responsabilidade. É lá que somos realmente livres, que não devemos nada a ninguém, porque ninguém espera nada de nós. A partir daí, todos os passos serão para cima. No fundo, sabemos com o que contamos e nunca defraudamos nenhuma expectativa. Mas a queda...
A queda dói. Cair de olhos abertos e ver o posto que alcançámos e onde nos encontrávamos fugir, ficar cada vez mais longe (mais lá em cima). Depois, ir vendo sucessivamente todos os postos por onde já havíamos passado, dos melhores para os piores. Sentirmos, durante a queda, a perda não só do posto onde estávamos, mas também a perda de cada um destes postos. Pensar que nos contentávamos com um deles, por muito baixo que fosse, como alternativa ao fundo.
A dor e o desespero da queda são acompanhados sempre de vergonha. Ao cair, mostramo-nos fracos, mais fracos do que aqueles que nos vêem cair. Os olhos postos em nós, seguindo o nosso trajecto descendente, fazem-nos virar a cara- mesmo sabendo que nos observam, ao menos não temos que os enfrentar e sentir que nos vêem cair. Infelizmente, para qualquer lado para que nos viremos, há sempre alguém... E mesmo de olhos fechados, sabemos que estão lá.
Ao bater no fundo, podemos finalmente escutar com atenção a voz que nos enfeitiçara. Ouvida de perto, a voz é seca, metálica, sem graça, indiferente. Já não nos atrai. E o pavor? Esse, dá lugar ao arrependimento. Por não termos dado valor ao que tínhamos nem aproveitado a nossa condição. «Elevar-se» sempre mais. Será que é assim tão necessário procurar sempre melhor? Porque não aproveitar e conhecer melhor o que se tem? Só depois de o fazer é que poderemos procurar ao certo algo melhor. E sabendo o que procuramos.
"Lá"
Hoje vou partir!
Vou sair para uma viagem...
Não sei o destino,
Não levo bagagem,
Mas o vento que vem de longe
Diz-me que vá,
Que corra,
E que voe
Até lá chegar...
Aonde quer que esse "lá" seja...
E eu vou!
Porque quero partir,
Fugir deste lugar,
E procurar por ti.
Afinal, levo algo comigo:
A certeza de que estarás "lá",
À minha espera.
Hoje viajo com o vento até te encontrar...
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2004-06-06
Uma dama com um sinal
Vi-te num dos meus devaneios solitários, num qualquer bar escuro, no meio de uma nuvem densa e viciada de fumo, enquanto me refugiava num whisky de malte. Entraste ao ritmo do I'm your man e sentaste-te do lado oposto do balcão. O teu vestido vermelho-sangue, decotado, contrastava com o ar causal e despreocupado que parecias querer transmitir. Reparei que o teu cabelo estava ligeiramente despenteado; era capaz de apostar que o tens assim despenteado há anos... Gasto, cansado de ser acariciado. Olhaste-me de relance, com indiferença, enquanto eu te estudava os traços do rosto, interessado. Tinhas um ar quente, sensual. Pensei em dirigir-me ti, tocar-te no ombro, não te dizer nada e levar-te dali. Não queria saber o teu nome, não te queria conhecer, apenas mostrar-te quem sou. Um dia bastava. Expor-me friamente perante ti, uma perfeita desconhecida, pegar na tua mão, pousá-la sobre o meu peito ardente e deixar-te sentir o que quer que fosse, deixar-te julgar-me à tua vontade, deixar-te fazer juízos de valor falsos, criar uma ideia sobre mim sem saberes nada de nada. No fim, ia embora sem me despedir, sem pensar em ver-te de novo, esquecendo-me de imediato da tua figura. Olhava-te nos olhos e susurrava a esse teu sinal no pescoço "Não vês que em mim tudo é maior?"
2004-06-01
...
Hoje cubro-me com um grande silêncio. E espero que me tires esta capa, te interesses por mim e me queiras conhecer. Até ao fundo.
2004-05-23
O que procuras?
Vieste ao meu blog à procura de partes de ti ou à procura de partes de mim completamente rendidas a ti?...
2004-05-22
Não me respondas com um silêncio
Nunca me perguntaste se te amava, nem nunca me pediste para to dizer. Será que to demonstro assim tão bem (e surpreendo-me a mim próprio com isso!) ou será que não sentes a necessidade de o saber, em todos os momentos que passas a pensar em mim? Não vives na incerteza, no medo?... Na vontade de seres tudo comigo, de teres tudo comigo? O meu céu é muito maior que o teu, então...
2004-05-20
Numa noite de calor
Ontem deixaste-me ir contigo à frente. É sempre melhor quando vamos os dois à frente. Eles vão atrás, num riso constante e contagiante, metem-se comigo, mas as piadas passam-me ao lado... Vou a tentar não perder nada do que dizes. Todas as frases que me diriges, todos os comentários que te ouço fazer são mais do que ensinamentos, são regras de vida que sigo religiosamente. Sabes sempre dizer uma frase reconfortante, pôr-me à vontade. Estava calor e tu abriste o vidro. Fiquei contente por, naquele momento, termos sentido os dois calor; por termos sido iguais. Vinhas a falar-me da mente, da amizade e a ensinar-me o significado da palavra GURU. Foi então que me lembrei que, ao entrar, me tinha curvado e, sem me aperceber, te tinha feito uma vénia.
Obrigado, Baggio. Por seres O amigo.
2004-05-16
Mata-me outra vez
Fala-me um pouco mais...
Era tão bom ficar,
O mal é que eu já não sei quem eu sou...
Eu não sei se eu sou capaz
De me ouvir.
Fala-me um pouco mais...
Era tão bom subir
E dar o que eu nunca dei a ninguém.
(...)
Tudo tem um fim
E aqui não há ninguém que possa ter o mundo para dar.
Se um dia voltar, vai ser só mais uma forma
De me ausentar,
Daquilo em que eu não quero pensar.
(...)
Páro de andar, páro p'ra te ouvir, páro para ver se é bom p'ra mim.
Se é melhor só que uma vida tão só e prenha de ninguém.
E vejo que é bom dizer
Páro p'ra te ouvir.
Mas foi só para ver se o futuro é para nós...
Para quem tem o mesmo mal de não saber amar
Falo que pensar em mim é cura e faz-me acordar.
in Cão, Ornatos Violeta
2004-05-14
Um momento de olhos fechados contigo
Será que tu existes, mesmo? Não serás tu uma feliz criação da minha mente, a junção de tudo o que sempre procurei? Desde que apareceste nunca mais me senti só. Passo o tempo a pensar em ti, a imaginar-te, a criar-te e recria-te, a fazer-te perfeita... Trago-te sempre comigo, como um segredo que anseio partilhar, de que me orgulho. E depois, quando te vejo, quando te vejo mesmo e toco e cheiro e me arrepio (só com a tua presença!), percebo que existes, que és mais do que uma ilusão! Tens lábios de silêncio e mãos de bailarina... Voas como o vento e abraças-me onde a solidão termina!Agora, que te sei minha, deixo-me levitar a teu lado, sem medo, de braços abertos, e tu guias-me, brincas comigo como se eu fosse um avião, para cima e para baixo, às voltas, deixando um rasto imaginário pelo ar... Olho para o relógio que me deste; os ponteiros flutuam no ar, ao acaso, sem pressas nem demoras. Desprendem-se de ti pequenos anjos, iguais a ti, que brincam também e me sussuram alguma coisa que não percebo, mas que me faz sorrir... Olho para ti, ponho-te o cabelo atrás da orelha, muito devagar, faço-te uma carícia e fecho os olhos. É isto que me vai na alma quando estamos juntos e me perguntas "Em que estás a pensar?". Percebes agora porque fecho os olhos? O Amor sente-se de olhos fechados...
2004-05-03
Caminho para casa
Saio de tua casa e não sei para onde ir. Já não reconheço as ruas nem os caminhos. Desliguei-me de tudo para te viver só a ti, para saber só sobre ti e, agora que saí de ti, sinto-me perdido. Vou para minha casa sem saber sequer onde fica. Sinto algum frio... Não é um frio físico, mas um frio que me corre a alma, porque só me sinto agasalhado quando estamos abraçados. Eu sei que os dias acabam e que não são feitos só de nós os dois. Por isso, tenho que voltar para casa. Não me importo que tenhas o teu espaço, as tuas coisas, mas eu só te tenho tido a ti, ultimamente. O tempo que estou só é um vazio, uma espera costante. Deixei a janela aberta e o Without you I'm nothing a tocar, repetidamente, para me guiar pela melodia triste. Pensei deixar pétalas de rosa pelo caminho, para não me perder na volta, mas talvez voassem... É engraçado: sei tão bem como ir para tua casa, mas nunca sei como vir... A que horas combinamos amanhã?
2004-04-24
Recordação de Infância
«Subia a um pessegueiro que tinha no jardim e sentia-me tão livre!... Com o vento a bater-me na cara sonhava em ser "uma pessoa grande" que soubesse estudar as flores cor-de-rosa que me rodeavam...»
S S
Li algures esta recordação de infância e quis que fosse minha...
2004-04-08
Stop
Ando às voltas com um exame de Microbiologia. Exame escrito dia 14 de Abril e exame oral uma semana depois. Por isso, os ventos adversos vão parar de soprar por uns dias...2004-04-07
Serpentine
I´m caught in the flow if things
My memory's a broken machine
This is how my day begins
This is just one day unseen
Lets do it serpentine any time
Lets do it right here
Is it bad that you're good for me
Did I love you just randomly?
I'm caught in the flow of sound
And you're just some melody
Let's do it serpentine, any time
Let's do it right here
There's a cut litle litany
Put it on my shoulder
Eight o'clock and we agree
It makes me look much older
Got my clock works company
Got my dark green trenchcoat on
I'm sure it will always be
Someone staying and someone gone
from In a Bar, Under The Sea :: dEUS
2004-04-06
Círculo da Solidão
"Porque é que é utilizada a palavra círculo quando se reúne um conjunto de pessoas com uma característica comum?
-Círculo de amigos.
-Círculo de colegas.
-O círculo da família.
O círculo é uma forma geométrica perfeita. Aristóteles considerou os círculos como formas etéreas e divinas.
Mas porquê o círculo? A resposta não está na perfeição das relações entre as pessoas que o círculo encerra mas sim nas pessoas que ele engloba e, mais importante do que isso, na igualdade entre elas. Só pertence ao círculo quem está dentro dele e destes, a distância ao centro é a mesma. Esta distância representa a igualdade entre essas pessoas relativamente à característica que caracteriza o círculo. Um rectângulo também pode englobar pessoas mas a distância de cada lado ao centro não é a mesma. Não há igualdade.
Um círculo é igualdade.
Um rectângulo é realidade.
Fora de ambos é solidão."
in Círculo da Solidão, de Paulo Gomes
2004-04-05
O pensamento do dia és tu
O tempo derrete-se e parece não passar. Volta. 2004-04-03
Ah! O Amor...
Também eu já me rendi a um mundo só, esqueci tudo o resto para te adorar só a ti. Para te amar. E amei com todas as minhas forças, quis fundir-me contigo, deixar de existir para dar lugar a Nós, não fazer somente sinal de silhueta contigo, mas ser tu, fazer de ti eu, criar uma pessoa só. Infelizmente, as nossas almas revelaram-se não miscíveis e acabavam sempre por se separar, como água e azeite. Sempre tive a esperança de que o Amor mútuo e verdadeiro tivesse magia suficiente para superar as leis da física, mas apercebo-me de que posso responder apenas por mim próprio e confirmar apenas o meu Amor (e não o teu, porque nunca foram o mesmo). Hoje vivo com atenção a esse mundo, a esse mar de almas amáveis, e vou-me perguntando se alguma vez vou sentir o sabor doce do Amor (deixá-lo derreter na boca, devagar...); sei que o reconhecerei quando o encontrar- é exactamente o oposto deste travo amargo da solidão...
E o Amor?
Estha, Estha... Essa tua felicidade é paradoxal. Vejo-te com medo de não aguentar tanta beleza, tanta coisa à tua volta para descobrir, para gostar. Será que vale a pena conhecer de tudo um pouco, sentir um pouco de todas as magias, mas nunca deixar nenhuma dessas magias actuar, com calma, passear-te por baixo da pele, envolver-te, conquistar-te? Eu sei que é perigoso e o risco de te perderes é muito grande, mas assim ficas sem saber! Assim não podes ver o outro lado, o mundo interior das coisas, a alma existente em cada uma dessas casualidades que te- que nos!- comove. E o Amor? Sentes simpatia, sentes paixão por uma imensidão de coisas, mas não fazes a mínima ideia do que é amar uma dessas coisas. Para isso tinhas que te deixar ficar, esquecer o resto, perder uma infinidade de outros mundos e dedicares-te a um só! Tal como eu fiz...
E se eu hoje não dormisse?
O mundo é grande demais para mim. Hoje, mais uma vez, fiquei acordado até tarde (estou exausto!) e ainda assim sinto a necessidade- quase obrigação- de acordar cedo, amanhã. Para não perder tempo. Para não perder nada do que se passa lá fora. É muito difícil lembrar-me de tudo o que vi e que queria guardar e, ao mesmo tempo, não deixar escapar nada do que está à minha frente, neste preciso momento e no seguinte, e no outro a seguir... Se páro por um instante para ver alguma coisa com atenção, comovo-me, tal é a beleza das casualidades, das coisas ínfimas; se não me prendo a nada e tento ver tudo, comovo-me, com esta imensidão, com a infinidade de pequenas e grandes coisas que mereciam a minha atenção, que mereciam um sorriso... e sei que, de qualquer das maneiras, não estou a tirar proveito de toda a beleza à minha volta- faço uma concha com as mãos, encho-as de areia e, por muito juntos que os dedos estejam, deixo sempre cair pequenas pedras, grãos únicos, de quartzo e feldspato. Não posso ficar para trás, a sentir a magia dos pequenos mundos dentro do mundo. Esforço-me por ver o máximo que consigo, com medo que um dia se perca tudo, ou que eu me perca num desses mundos pequenos e deixe de saber que existem muitos outros. Muitos mesmo...
2004-03-21
I
Gostava de ser como Maurício Babilónia e andar sempre com um bando de borboletas atrás de mim. Saber que elas voavam e me seguiam para todo o lado, amarelas e pretas, num dia de calor passado no campo. Sentir o vento quente, passar a mão levemente na erva alta, verde, e saber que as borboletas viam tudo o que eu fazia. Brincavam à minha volta, como se tudo o que precisassem para viver e ser felizes fosse a minha boa disposição. Deitava-me e olhava-as, esvoaçando por cima da minha cabeça, à espera que eu as fizesse brincar mais um bocadito... E o vento quente trazia um leve aroma, não sei de onde, a mel e bananas.